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Declaração do Forum da Sociedade Civil
Os Estados devem recuperar sua soberania
Declaração
à UNCTAD XI preparada por mais de 400 ONGs de todo o mundo e presentada ao
secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan.
O Fórum da Sociedade Civil, reunido por ocasião da UNCTAD XI, representa
movimentos sociais, grupos pelo desenvolvimento, grupos de mulheres, sindicatos,
organizações camponesas e agrícolas, organizações ambientais, grupos ecumênicos,
organizações de comércio justo, entre outros. Esse fórum expressa uma
pluralidade de perspectivas sobre o comércio, investimentos e concorrência e
seus impactos no desenvolvimento. No entanto, seus participantes estão unidos
na defesa de uma série de princípios, posições e ações que queremos
apresentar aos Estados Membros da Conferência.
O Documento oficial desta Conferência declara: "a globalização é uma
força poderosa e significativa para o crescimento e o desenvolvimento".
Esse tipo de globalização, entretanto, não reflete o processo observado na
realidade. Além disso, essa visão é inconsistente com a análise apresentada
posteriormente no próprio documento que aponta o impacto negativo e a concentração
de riqueza causados pela implementação da agenda neoliberal e da globalização.
Da nossa perspectiva de sociedade civil nós nos preocupamos com o fato de o
documento oficial utilizar uma retórica que descreve uma globalização
inclusiva e eqüitativa, mas que não menciona a relação entre guerras
travadas para a apropriação de recursos para o favorecimento das corporações
transnacionais. Tampouco reconhece o fato de que essas guerras aprofundam a
pobreza, aumentam a fome e a degradação ambiental para milhões de seres
humanos.
Ao mesmo tempo, o documento enfatiza a existência de "perdedores"
entre os países e dentro deles, porém, não menciona os padrões insustentáveis
de produção e consumo; e nem mesmo a existência de "ganhadores",
que são, fundamentalmente, os acionistas de corporações transnacionais e o
capital financeiro especulativo, localizados majoritariamente nos países
desenvolvidos.
O documento oficial também destaca o papel do investimento externo direto para
o desenvolvimento nacional, mas a realidade mostra que a maior parte do capital
externo não é complementar à poupança nacional no médio prazo, mas sim uma
das formas mais evidentes de transferência de recursos. O modelo de crescimento
baseado nas exportações promovido pelas corporações transnacionais não leva
ao desenvolvimento, e sim ao empobrecimento.
Também nos preocupa a falta de referência ao impasse em Cancun, que significou
uma nova configuração internacional de forças políticas e a inclusão dos
temas que já foram rejeitados na Quinta Ministerial. Nós não queremos que a
UNCTAD abandone sua independência e seu papel como espaço para reflexão crítica
e tampouco que seja utilizada para operacionalizar os acordos da OMC. A UNCTAD
deve enfrentar e apoiar os desafios dos países em desenvolvimento e dos países
em transição.
Com base nessas preocupações críticas sobre o documento oficial, entre
outras, queremos expressar à UNCTAD as seguintes recomendações:
• Que se rejeite a chantagem financeira, os
bloqueios econômicos, a intervenção militar e a ocupação ilegal por parte
de Governos ricos em nome das corporações transnacionais e investidores;
• Que a dívida externa seja definitivamente
cancelada, liberando imediatamente os países pobres dessa carga, e que as
corporações transnacionais sejam cobradas por suas responsabilidades no
endividamento mais recente;
• Que os Estados recuperem e/ou retenham seus
direitos de soberania para definir políticas domésticas, que não afetem
outros países, e que tais políticas sejam adequadas às realidades nacionais,
em diálogo e concertação com a sociedade civil;
• Que o comércio internacional e as instituições
e instrumentos ligados a ele sejam submetidos aos princípios da Declaração
Universal dos Direitos Humanos e aos acordos e convenções emanadas de
processos relevantes da ONU e das Metas de Desenvolvimento do Milênio;
• Que a UNCTAD se engaje de forma ativa na criação
e gestão de mecanismos multilaterais destinados a sustentar e regular os
mercados de commodities, particularmente de produtos agrícolas;
• Que a UNCTAD reconheça e promova o direito de
cada país ou grupo de países à soberania alimentar e o direito dos mesmos de
promover a proteção de suas economias e agriculturas, incluindo tarifas e
restrições quantitativas que são os principais meios de proteção dos países
pobres. Acreditamos que os países precisam se unir para garantir esses
direitos. E é nesse importante contexto que nós apoiamos o diálogo e a
cooperação entre o G-20 e o G-90;
• Que as corporações transnacionais sejam
proibidas de utilizar artifícios legais contra políticas e ações voltadas ao
desenvolvimento e que seja criada legislação de responsabilização e transparência
para suas atividades. Isso inclui o direito legal de cidadãos e comunidades de
proteger-se contra investidores que violem seus direitos;
• Que haja um efetivo compromisso dos governos
com a superação das desigualdades de gênero, raciais e étnicas, proteção
da diversidade cultural, e proibição da discriminação baseada na orientação
sexual na definição de políticas de desenvolvimento e de políticas
orientadas para o combate à pobreza;
• Que sejam garantidos os direitos sociais, econômicos,
trabalhistas e sindicais;
• Que seja assegurada a soberania sobre os
recursos naturais, commodities e a biodiversidade. Que a transferência de
tecnologia seja facilitada e que sejam proibidos o patenteamento de seres vivos
e a comercialização de medicamentos e organismos geneticamente modificados,
para que seja promovido um desenvolvimento verdadeiramente soberano, sustentável
e eqüitativo.
• Que práticas de comércio justo sejam
encorajadas.
Acreditamos que a solidariedade e a união entre países em desenvolvimento é
crucial e rejeitamos quaisquer tentativas de dividi-los. Estamos convencidos que
o livre comércio não distribui os recursos de maneira eqüitativa. Uma
democracia viva e participativa, baseada na cooperação econômica e num
ambiente de solidariedade e paz, permitirá uma distribuição mais justa e eqüitativa
da riqueza entre as nações e os povos.
Temos a certeza de que esse mundo melhor é possível.
Forum da Sociedade Civil, São Paulo, Brasil, Junho de 2004.
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